Toda tatuagem de fôlego nasce antes da máquina ser ligada. É uma frase que repito no estúdio, no Alto da XV, e que costuma surpreender clientes que chegam esperando escolher um desenho na hora e sair tatuado. Um projeto autoral — principalmente um fechamento ou uma peça de grande porte — não funciona assim. E é justamente o tempo que separamos para a conversa que separa um resultado impecável de um que envelhece mal.
A consultoria é o nome que dou a essa primeira conversa. Não é uma venda, não é um orçamento rápido, não é uma escolha de catálogo. É uma sessão dedicada a entender o que cada pessoa carrega, o que quer tatuar, por que quer tatuar e o que o corpo comporta. Em um projeto de grande porte, esse passo é tão parte do trabalho quanto a própria tatuagem — porque é ele que define o desenho que vai durar décadas na pele de alguém.
A primeira etapa é escutar. Quando um cliente chega, pergunto sobre a história das tatuagens que já tem, sobre o que cada uma significa, sobre o que gosta e o que não gosta nelas. Em projetos de fechamento, isso é decisivo: algumas peças antigas precisam ser respeitadas, outras podem ser reinterpretadas, e o conjunto inteiro precisa ser lido como uma única composição. Em projetos novos, o que escuto é sobre a ideia — de onde veio, o que ela representa, qual região do corpo foi escolhida e por quê. Toda essa informação entra no desenho.
A segunda etapa é avaliar a pele. A anatomia é uma variável técnica, não estética. Uma pele fina comporta detalhe fino; uma pele mais grossa pede composições de maior fôlego. Uma região que se estica com o movimento — cotovelo, joelho, costela — não comporta o mesmo nível de detalhe que uma região estável como o antebraço ou a coxa externa. Tatuagens antigas na mesma área afetam o que dá para tatuar por cima. Tudo isso é parte do que olho antes de propor qualquer desenho. A tatuagem não é feita na referência — é feita na pele.
A terceira etapa é conversar sobre estilo. Em um projeto autoral, é comum que a escolha do estilo seja parte da consultoria. Um cliente que chega com uma ideia de retrato pode, depois da conversa, perceber que o conceito conversa melhor com o litotattoo — meu estilo de tatuagem esculpida em pedra — do que com o realismo tradicional. Outro que pensa em blackwork pode entender que o conceito dele pede, na verdade, um surrealismo com elementos de preto. Esses redirecionamentos não são imposições: são conversas honestas sobre o que serve a cada ideia. E é por isso que a consultoria não é um passo opcional — é o passo que alinha o que se quer com o que se pode.
A quarta etapa é desenhar. O desenho não sai da consultoria pronto. Saem as decisões: o conceito, a região, o estilo, o tamanho aproximado, o número de sessões provável, o cuidado pós-sessão que aquele projeto vai exigir. A partir dali, vou para o projeto gráfico. Em peças de grande porte, costumo trabalhar com referências da própria pele do cliente — fotografias da região em diferentes ângulos, que servem de base para simular como a luz vai cair e como a composição vai dialogar com o movimento do corpo. Um desenho pensado sobre a pele real cresce com o corpo; um desenho pensado como se a pele fosse uma tela plana tende a parecer deslocado.
A quinta etapa é o orçamento. E aqui há um ponto que gosto de ser transparente: um orçamento honesto não se dá no primeiro minuto. Não existe "quanto custa um fechamento" sem antes olhar a pele, entender o tempo que ela pede, quantas sessões serão necessárias e qual estilo vai guiar o conjunto. Um orçamento apressado, sem consultoria, costuma ser um orçamento errado — para mais ou para menos. Por isso o caminho é: conversamos, avaliamos, desenho o projeto e, só então, apresento o custo e o cronograma. É mais demorado no começo e mais seguro no resultado.
Há um detalhe que costumo mencionar e que vale repetir: o atendimento é privativo. No estúdio, no Alto da XV, trabalho com uma pessoa por vez. Isso não é um luxo — é parte do método. Um projeto autoral pede foco: iluminação e acústica controladas, higiene hospitalar, e o tempo que cada pele precisa. Uma sala cheia, com clientes esperando e prazos apertados, não é um ambiente onde se tatua um fechamento de costas ou um surrealismo de coxa. Por isso a consultoria também é uma forma de garantir que o cliente entende, desde o início, que seu projeto vai ter o tempo que ele merece.
A consultoria também é o momento de alinhar expectativas sobre a dor, sobre os intervalos entre sessões e sobre o aftercare. Em projetos de grande porte, a resistência física é um fator real, e conversar sobre isso antes evita que o projeto pare no meio por causa de uma pele que não descansou o suficiente. O aftercare é repetido em cada sessão — manter a região limpa, hidratada e protegida do sol é o que preserva o contraste do preto e a leitura da composição por décadas. Esses cuidados não são detalhes: são parte do projeto.
Quando alguém me pergunta, em Curitiba, como começa um projeto de tatuagem comigo, a resposta é sempre a mesma: com uma conversa. Traz referências, traz fotos da região do corpo que você considera, traz as perguntas que você tem. A partir dali, desenhamos juntos o caminho — da ideia ao desenho, do desenho ao primeiro traço, do primeiro traço à peça pronta. É assim que nasce uma tatuagem que vai durar décadas — não um verão.
Há um momento da consultoria que costumo descrever como o mais importante e que, muitas vezes, passa despercebido: é quando o cliente entende que um projeto autoral não é sobre escolher um desenho pronto, mas sobre construir uma peça que ainda não existe. Esse entendimento muda a forma como a pessoa chega às sessões. Quem espera escolher de um catálogo costuma se frustrar quando percebe que o caminho é outro — mais longo, mais conversado, mais pessoal. Quem entende que está cocriando chega com outra disposição: traz referências, sim, mas também traz abertura para o que a técnica e a pele pedem. É essa abertura que permite que o desenho cresça no sentido certo. E é por isso que a consultoria, para mim, não é um passo burocrático — é o espaço onde a relação de confiança que vai sustentar o projeto inteiro começa a ser construída.
Com Alann Deciel, cada projeto autoral é concebido individualmente em consultoria prévia — garantindo harmonia com a anatomia do corpo e longevidade artística. Atendimento privativo no Alto da XV, Curitiba.

